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Agrônomos que analisaram as terras de Canarana-MT em 1972, retornam ao município

Fonte: Lavousier Machry e Rafael Govari | 08/02/2020 as 11:43

Primeiro acampamento dos agrônomos na região.

Canarana-MT, cidade que “virgem brotaste das entranhas do cerrado”, como diz a primeira estrofe do seu hino, é fruto de um projeto de colonização que englobou 80 famílias e teve seus primeiros moradores em 14 de julho de 1972. Hoje, o município é parte de uma das regiões mais ricas de Mato Grosso, cultivando 280.000 hectares de soja (1% da produção nacional).

Mas antes dos “Heróis pioneiros morando em tetos de lona”, a terra, em que hoje tantos frutos se colhem, precisou ser atestada e validada para que a vida de centenas de pessoas pudessem assim, se transformar. Em 06 de julho de 1972, dias antes das primeiras duas famílias colocarem os pés no cerrado, um grupo de estudantes de agronomia chegou à região para ver, o que hoje muitos produtores sabem: o “rico eldorado”.

Carlos Roberto Landerdahl, Gui Gerson do Canto Brum, Heider Vito Bernardi Campanaro e Helvio Carlesso, concluíam em 1972 o curso de engenharia agronômica na Universidade Federal de Santa Maria UFSM-RS, quando foram surpreendidos com uma oportunidade singular de estágio. A convite da Coopercool (Cooperativa de Colonização 31 de março Ltda), viajar quase 3.000 km para, em meio ao cerrado virgem do Mato Grosso, iniciar a demarcação das primeiras infraestruturas do que viria ser Canarana, como o levantamento planimétrico, estrada, localização dos terrenos da 1º Agrovila, e é claro, analisar o solo.

Em entrevista exclusiva para a AGRNotícias, o agrônomo Heider Campanaro, atualmente residindo em Santa Rosa-RS, conta que “não foi preciso muita argumentação para nos convencer de aceitar este desafio, porque durante nossa formação acadêmica, este assunto do minifúndio era abordado e discutido buscando alternativas que poderiam ser tomadas para enfrentar este problema”. As 80 famílias que vieram para o projeto de colonização, adquiriram pequenos lotes onde poderiam reiniciar a produção agropecuária.

Estrada que dava acesso a região que viria a se tornar Canarana – MT.

Na viajem, ao chegarem em Barra do Garças-MT, na época último resquício urbano da região, o cerrado começou a tomar conta da paisagem. “Naquela época a BR-158 era apenas uma estrada que se apresentava em péssima conservação, o que nos levou a percorrer a distância de Barra do Garças ao entroncamento para Canarana em um tempo de 18 horas”, afirma Heider.

Trator Esteira alargando estrada para passagem de caminhão com suprimentos.

Para demarcação da estrada que levaria até a 1º Agrovila, estava previsto, conforme Heider, a disponibilização de um trator esteira com lâmina que iria auxiliá-los na abertura da estrada. A chegada do trator esteira, contudo, atrasou e “devido ao pouco tempo disponível, iniciamos a abertura de uma picada por onde poderíamos carregar nossos equipamento (Teodolito, Nível, Trenas, Réguas, Baliza de Ferro e Tripé)”, afirma o agrônomo. “Na sequência vinha uma turma alargando a picada para que nosso caminhão de apoio (Cozinha e Alojamento) pudesse passar”, descreve.

Primeiras Impressões

“Ao chegarmos à área destinada ao assentamento {…}, podemos verificar que estávamos diante de uma paisagem de baixo potencial produtivo mas, com olhar agronômico, verificamos que estávamos diante de um gigante adormecido que poderia transformar-se num grande produtor de grãos e carne”, afirma Heider, lembrando as primeiras impressões que tiveram sobre o local.

Naquela época, evidencia o agrônomo, “não era possível potencializar a produção e nem o crescimento da região, porque as técnicas apropriadas para o cultivo no cerrado eram empíricas, as quais, pela sua falta, foi responsável por muitos fracassos e desistências”. De fato, não só pioneiros do que viria a se tornar Canarana, mas também das regiões que se tornaram Água Boa-MT e Querência-MT, sofreram com essa realidade e, sem outra opção, retornaram para a região Sul do país.

Acampamento dos agrônomos.

“Tínhamos certeza que a colonização e o desbravamento ocorreria com sucesso. Estava nas mãos de agricultores gaúchos, que já tinham provado ser especialistas nesta atividade de desbravamento, como exemplo, podemos citar as regiões oeste dos estados de Santa Catarina, do Paraná e do Mato Grosso do Sul”, explica Campanaro.

Primeiras Famílias

A realização dos trabalhos de análise do solo e medições demorou 30 dias.

“A previsão de chegada das primeiras famílias era após a demarcação da Agrovila e abertura da estrada. Para a surpresa nossa, em torno de 10 dias após o início dos trabalhos, chegaram as primeiras (famílias), o que nos deixou profundamente preocupados, pois não existia infraestrutura mínima para recebê-los”, diz Heider. As duas primeiras famílias de pioneiros chegaram à região em 14 de julho de 1972.

Os agrônomos já em meio as primeiras famílias na região.

Heider conta ainda que, numa tentativa de superar a adversidade que se depararam, “convidamos os homens desta caravana para se juntar a nós e caminhamos juntos naquela  empreitada. Apesar das dificuldades que viriam pela frente, víamos nos olhos dos agricultores um brilho de esperança e o otimismo”.

Potencial Produtivo

Os quatro agrônomos ficaram na região por 30 dias e, depois, tiveram que retornar a Santa Maria para concluir a graduação. No retorno, se debruçaram sobre o material e dados coletados na região. “As análises das primeiras amostras de solo realizadas no laboratório da faculdade confirmaram a nossa primeira impressão: que seria um solo  ácido, arenoso, com baixo teor de matéria orgânica, como também níveis baixos de macronutrientes (principalmente fósforo e potássio) e também de micronutrientes”, argumenta o agrônomo, que após a experiência se aventurou e já trabalhou na profissão em outros cinco estados brasileiros. 

“Nosso professor na cadeia de solos nos ensinava que o solo servia de base para o desenvolvimento de plantas e animais e seu potencial produtivo estava diretamente ligado ao tratamento dado ao mesmo”, afirma Heider, contrapondo os resultados em laboratório, no sentido que a aparente carência de nutrientes poderia ser remediada pelo emprego de técnicas de cultivo modernas e adaptadas ao bioma do cerrado.      

Homenagem

Os quatro agrônomos estarão em Canarana nos dias 14 e 15 de fevereiro próximos, para participar das comemorações do aniversário do município e receber o título de Cidadão Canaranense pela Câmara de Vereadores. Dos quatro, três deles nunca mais retornaram a Canarana e, verão pela primeira vez, presencialmente, o desenvolvimento das terras analisadas por eles há 48 anos.

“O sentimento ao receber o título é muito significativo e honroso, pois é um gesto de reconhecimento e gratidão de uma comunidade inteira pelo trabalho que realizamos há muitos anos e que originou a criação deste município. Hoje, temos condições de analisar o quanto foi importante e de grande responsabilidade este nosso trabalho”, afirma Campanaro.

Heider Campanaro.

“Voltando ao passado, chegamos a conclusão que acertamos quando na formatura do 2º grau, apresentamos nosso desejo de ser Engenheiro Agrônomo. No último ano de estudo na faculdade nos foi apresentado este trabalho que foi por nós considerado  como primeiro serviço profissional. A profissão do Engenheiro Agrônomo é muito gratificante, porque contribuímos para produção de alimentos para toda humanidade. Olhando para os dias de hoje, podemos dizer que aquele trabalho inicial de colonização idealizado pela Cooperativa de Colonização 13 de Março  tem muito a ver com este crescimento na produção de grãos, pois a região Leste de Mato Grosso era totalmente inexplorada. Com a chegada dos colonizadores sulista, eles transformaram esta região num grande celeiro”, conclui Heider Campanaro.

Por AGRNotícias, Lavousier Machry e Rafael Govari. Fotos cedidas por Heider Campanaro.

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